Corações largados
Estava lá, caído, esquecido, largado em meio ao caótico vai e vem. Era novo, mas não estava saudável. Era belo, mas estava sujo, mal tratado. Me comoveu. Não pude evitar, pois foi como uma correnteza me impulsionando e dizendo: vá, pegue-o, ajude-o, você pode. Tomei-o como se fosse o meu próprio. Acolhi-o com tanto carinho, com tanto amor, com tanta ternura, que mais se parecia um filho, um filho pródigo, o meu filho pródigo, alguém que desperdiçara o tudo que tinha no nada que ficou, onde só sobraram dores, cinzas, remorso. O simples ato do acolhimento já pareceu trazer-lhe nova vida. O acolhimento foi puro, a recíproca foi verdadeira, pois também me acolheu, ainda que totalmente entregue à sua desventurada sorte. Um abraço, o aconchego de quem já até havia se esquecido desta mesma sensação. Só não sabia quem se esquecera, eu ou ele. Só então percebi o óbvio. Eu estava ali, e ele estava aqui, e nós éramos um só. Toda a nossa estrutura, toda aquela estrutura tão complexa, concebida pelo e com amor, unida, como instrumentos em uníssono, ou melhor, num dueto perfeitamente arranjado. Só então notei que eu também estava sujo, descuidado, largado naquele vai e vem que, bem observado, demonstra algo ainda mais óbvio: a sujeira era tanto a causa como o resultado do vai e vem, da procura, e ninguém, quase ninguém se encontra. Ali percebi como estamos sem rumo. Naquele abraço, naquele aconchego, entendi a real situação: todos perdidos, e apenas Um sabendo exatamente o que fazer, propagando a força para o amor e para a unidade. Eu, aquele que eu abraçara, todos em volta, perdidos. Um, acima de todos, mas em meio a todos, mostrando o caminho, sendo o caminho. Corações, largados, sujos e mal tratados.