Críticas, aprendizado e humildade
"Devemos abster-nos de toda crítica e procurar descobrir em tudo o que encontramos, em tudo o que vemos e em tudo o que lemos, não essa parte da fraqueza de que pensamos que ela nos isenta, mas essa parte da realidade que nos alimenta."
Louis Lavelle
Parece-me que em nossa sociedade existe uma cultura destrutiva, invejosa, perniciosa, alimentada por uma sempre pronta disposição para as críticas, para os comentários maldosos, para o "apontar o dedo". Embora se produza uma propaganda do brasileiro como um povo gentil, brincalhão, de bem com a vida a despeito das circunstâncias adversas, a realidade diária nos mostra que estamos imersos em pensamentos maus e críticos em relação ao nosso próximo.
A sensação real é a de que o brasileiro esqueceu-se, por mais cristã que seja sua herança, de considerar o mandamento de Jesus Cristo, de fazer ao próximo aquilo que esperamos que ele faça para nós, a famosa regra áurea (Mt. 7:12), e também tudo o que Ele disse sobre o julgar o próximo (Mt. 7:1-5). Sempre queremos o que nos é de suposto direito, e nossa sociedade tem sido quase que sistematicamente ensinada a pensar desta maneira, desde a mais tenra idade. E, assim, a nação cristã vai se pondo cada vez mais longe dos princípios evangélicos. Sejamos nós católicos ou evangélicos, o quanto não temos sido enredados por esta cultura? O quanto não temos emprestado nossos lábios para criticar a tudo e a todos?
Ao invés de encararmos a realidade com sabedoria e humildade, procurando entender e buscar melhores caminhos para a sociedade, estamos sempre prontos a defender apenas aquilo que nos interessa, criticando e apontando o próximo em tudo aquilo que não está de acordo com o que queremos. Criticamos, muitas vezes, de maneira "bovina", repetindo e ampliando o mugido da manada. Deixamos de atentar para a realidade, para limitações e dificuldades que outras pessoas ou situações nos apresentam. Queremos tudo à nossa maneira.
Não estamos nos atentando para o que as pessoas e as coisas, em suas falhas e limitações, podem nos ensinar; afinal, as mesmas coisas, falhas, erros nossos, podem ensinar a outrem. A crítica constante, porém impotente e feita de qualquer maneira, não leva a nada além de nervosismo, rancor, sentimento de incapacidade. Críticas precisam estar em consonância com aquilo que realmente estamos vendo de errado, e deveríamos dar passos além, buscando soluções e propondo melhorias, caminhos alternativos, etc. Ou, como no texto em destaque no início da página, do filósofo francês Louis Lavelle, deveríamos estar primeiro dispostos ao aprendizado que a realidade nos traz, à maneira que muitas vezes Deus usa a realidade, os acontecimentos diários, para mostrar nossas limitações, para nos ensinar, nos aperfeiçoar.
Criticar, já se diz por aí, é muito fácil. Mas quanto estaríamos nós dispostos a inverter a ordem das coisas, a propor coisas que agreguem, que construam, em vez de destruir com palavras? Quanto temos absorvido de aprendizado nos acontecimentos, em relação às pessoas com quem nos relacionamos quotidianamente? O quão humilde temos sido para, ao invés de tecermos críticas, como se estivéssemos num patamar superior de humanidade, desejarmos aprender com aquilo que nós ou outros fazem de errado?
Que o conselho do sr. Lavelle possa ser verdadeiro em nós, e que, antes de qualquer crítica, a quem ou o quê quer seja, possamos atentar para a parte em que Deus, através da realidade, está nos tocando.